Agricultura
Agroecologia no Cerrado: produtores que apostaram no diferente e colheram resultados
Por Marcos Vieira · 30 de junho de 2025
Quando Seu Geraldo decidiu, em 2015, abandonar os agrotóxicos e adotar práticas agroecológicas em sua propriedade de 40 hectares em Catalão, Goiás, os vizinhos acharam que ele tinha enlouquecido. "Me chamavam de louco, de ideólogo. Diziam que eu ia quebrar", lembra ele, enquanto mostra os pés de mandioca que crescem entre frutíferas nativas do Cerrado.
Dez anos depois, Seu Geraldo não quebrou. Sua produção diversificada — mandioca, pequi, caju, mel e hortaliças — tem demanda garantida em feiras orgânicas de Goiânia e Brasília. Sua renda é mais estável do que a de vizinhos que dependem exclusivamente da soja.
O modelo que funciona
A agroecologia não é apenas uma filosofia. É um conjunto de técnicas que, quando aplicadas corretamente, podem ser tão produtivas quanto a agricultura convencional — com custos menores e menor impacto ambiental. No Cerrado, onde a biodiversidade é extraordinária e o solo tem características específicas, as práticas agroecológicas têm se mostrado especialmente promissoras.
Uma pesquisa da Embrapa publicada em 2024 mostrou que propriedades agroecológicas no Cerrado têm, em média, 23% mais diversidade de espécies do solo do que propriedades convencionais — o que se traduz em maior resiliência a secas e pragas.
"A terra te devolve o que você dá pra ela. Eu parei de envenenar, ela parou de me decepcionar." — Seu Geraldo, produtor agroecológico, Catalão (GO)
Os desafios que persistem
Apesar dos resultados, a agroecologia ainda representa uma fração pequena da produção agrícola do Cerrado. Os obstáculos são conhecidos: falta de assistência técnica especializada, dificuldade de acesso a mercados e a cultura do crédito rural, que ainda favorece a agricultura convencional.
Marcos Vieira é agrônomo e repórter da SuperBR. Cobre agricultura familiar no Centro-Oeste.